Na verdade, este é um tempo, em que os Homens, pelo menos os de boa vontade, reservam para a confraternização. Se sentem em paz. Querem de esperança.
Por assim ser, é que se cantava que “o Natal é quando o Homem quiser”.
Pena que o Homem só queira o Natal uma vez por ano e, as mais das vezes, a fingir, no espírito e no gesto.
Falavam-nos, há dias, as televisões que são cada vez mais os idosos que depois de internados em instituições hospitalares, não têm familiares que os queiram quando lhes é dada alta médica.
Esses idosos curados da doença, ficam presos ao pior dos males que é o abandono, a solidão.
Curados do corpo, vivem a tortura da solidão, o sentimento do abandono. Afinal, continuam a precisar do hospital, não pelos males do corpo, mas pela pior das doenças, a da alma.
Quantos destes idosos, não sonharão com o Natal na esperança que aqueles que amaram, acarinharam, trataram, cuidaram, deram a vida, lhes batam à porta, lhes dêem a mão e lhes digam:
È natal.
Vamos para casa.
A sua família espera-o.
Quando era miúdo, a minha avó, fingindo lembrar-se de tempos que não eram dela, dizia-me que, antigamente, os filhos, quando os pais eram velhos, levavam-nos para o monte e lá os deixavam sozinhos, para morrerem.
Pensavam os filhos daqueles idos tempos que aqueles velhos pais já nenhuma serventia lhes tinham. Afinal, faltava-lhes a força para o trabalho. Eram apenas mais uma boca para sustentar.
Dizia-me a minha avó, que fazia fé no que lhe tinha dito a sua velha avó, que assim foi até ao dia em que um filho, num gesto que queria de carinho, levou o velho pai ao monte para lá o deixar à espera que a morte o levasse. Condoído com a má sorte do pai, quis deixar-lhe uma velha manta para que ele se agasalhasse do frio que era muito. O velho pai, agradecido e homem sábio, foi à manta e rasgou-a em duas partes iguais. Ficou com uma parte para si e a outra entregou-a ao filho. O filho não percebeu o gesto do pai e perguntou-lhe:
Para que me dás tu, meu pai, metade da manta, se eu vou para o quente da minha casa e és tu que aqui ficas, neste monte tão frio?!
Respondeu-lhe o pai: “Essa metade da manta não precisas dela, agora. Dou-ta para que a entregues ao teu filho e lhe lembres que quando chegar a tua vez de para aqui vires, então, ta dê! Porque é verdade, meu filho, sem a metade da manta, não sei se conseguiria viver para além desta noite!
Caindo em si, o filho pegou no velho pai e levou-o de volta a casa. Lugar donde, estava ele certo, nunca deveria ter saído!
Nos dias de hoje, começa a ser, de novo, tempo para os avós contarem aos netos a história do velho e da manta, para que os filhos não se esqueçam que também, um dia, serão avós e que, o que agora fizerem, será o que amanhã receberão.
È inegável o investimento das nossas autarquias no ensino.
É evidente o salto qualitativo que a nossa região deu no que às infra-estruturas escolares diz respeito. A qualificação das novas gerações é substancialmente superior à das gerações mais idosas. Longe vão os tempos em que a maioria era constituída por iletrados, senão mesmo analfabetos.
Essa batalha foi ganha.
Faltam-nos ganhar a batalha do apoio e do respeito para com os mais velhos.
Que o novo ano nos traga a esperança de que essa batalha começará a ser ganha.
No ano de todas as eleições que os novos projectos não se esqueçam de privilegiar o apoio aos mais idosos.
A todos os leitores, os meus votos de um santo natal e de um novo ano com muita saúde, muita força e determinação para que todas as dificuldades da vida sejam vencidas.
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